segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Fragmentos...


Não sei por que chamam os textos minúsculos de fragmentos. Um fragmento é um pedaço. Ora, se um escritor pensou: não quero escrever nada mais, isso é suficiente. Logo, o que escreveu não é um pedaço, é um todo. Há pessoas que não aceitam poucas palavras. Acreditam que boas idéias precisam de muito espaço preenchido por um monte de palavras. É bom lembrar do quanto os ricos pagam por tão pouca comida fina...
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domingo, 23 de agosto de 2009

O Velho e o Riacho


Num canto solitário de uma floresta distante, vivia um velho eremita. Seu cabelo e sua barba eram longos e brancos, como se fossem neve deslizando sobre as montanhas geladas do norte. Morava em uma aconchegante cabana de bambu e telhado de madeira rústica. O casebre possuía pequenas aberturas que serviam como janelas pelas quais se avistavam os cumes cobertos pelo gelo e pela neblina da madrugada. Uma porta baixa era insuficiente para a estatura do velho que quase não passava por ela. No interior havia três repartições, mas a serventia de cada uma delas não era bem definida. Contudo, o lugar preferido do eremita era uma lareira onde se acomodava nos dias frios. Não eram poucas as horas que permanecia estático contemplando as chamas. Era o altar do devaneio, da poesia, da música, do sonho, do amor, do desamor... Da solidão.

Ao lado da cabana, passava um pequeno riacho com águas tão límpidas que era possível ver os cardumes ao cair da tarde. Para transitar entre suas margens, foi feita uma pequena ponte com o tronco de uma árvore. Além da outra margem passava uma trilha que descia o riacho e sumia por entre a mata fechada. Durante o dia, vários tipos de animais eram vistos correndo em busca de alimento. À noite, sapos e grilos quebravam o silêncio e o velho deixava seu solilóquio para apreciar sua música.

Como nunca havia cruzado a ponte e o mundo do outro lado do riacho era estranho para o velho. Apenas ouvia falar dele pelos viajantes que buscavam informações a respeito das trilhas e acabavam contando várias histórias. Os mais apaixonados contavam das belezas, dos amores, das donzelas, dos sabores... enquanto os desiludidos preferiam falar dos assaltos, dos assassinatos, dos temores... Precavido, o velho sempre optava por permanecer em sua casa. Era mais seguro.

Num determinado dia, os ventos começaram a cantar forte em sua casa. Em suas vozes, melodias de lugares distantes, sonhos de criança que jamais seriam vividos se permanecesse naquele berço eterno. As canções despertaram entidades secretas. Desejo e curiosidade dançaram em seu coração, e ele bateu mais forte. Não cabia em seu peito. Queria saltar e ir para lugares onde bateria por outras coisas. Mas, a entidade do medo queria fazer a brincadeira parar. Exigia que o velho fizesse como os guerreiros helênicos que costumavam oferecer holocaustos a Fobos para que não se apoderasse deles na batalha. Para eles, o temor não era a falta de coragem, mas a sensação de segurança que a acomodação parecia trazer. Ao tentar exorcizar Fobos, o velho se deparou com outra entidade, mais forte que qualquer outra que já havia possuído sua alma: a angústia. É mais fácil lutar contra o medo do que contra a angústia, pois o primeiro é um sentimento em relação a algo que se sabe, enquanto o outro é um sentimento que não remete a nada. È um vazio que preenche grande parte da existência. Mesmo quem se cura do medo da morte, sente angústia. Para o medo existem os psicólogos, para a angústia os filósofos... Esses sabem que isso é um mal crônico e seu anestésico se encontra nas mãos dos poetas.

O desejo e a curiosidade falaram mais alto. Depois das tralhas e malas arrumadas, o velho partiu. Quase não se conteve ao atravessar a ponte. Tudo era novo para cada sentido de seu corpo: o perfume das flores que não existiam perto da cabana, o cantarolar dos pássaros, o gosto das comidas das senhoras taberneiras, a suavidade da pele de uma criança e muitas outras coisas adoráveis. No entanto, o que mais lhe tocava era o crepúsculo nas montanhas altas. Nesta hora, o silêncio tomava conta do universo e ele conseguia ouvir a voz de seu amigo rio que há muito havia crescido: não era mais uma criança/riacho. Suas águas não eram mais tão claras e em sua profundidade guardava segredos que jamais se manifestariam em sua superfície. Isso deixava o homem triste. Pensava que seu amigo estava lhe abandonando. Por outro lado, muitas vezes, o sofrimento ensina que a superfície é o lugar mais seguro, ponderou o velho. Seu amigo sofria com a sujeira dos homens e suas indústrias, com o barulho dos navios, com a morte de seus peixes por causa da poluição... Esse era o momento que o rio mais precisava de seu amigo. É na hora que mais segredos são guardados que mais se precisa de amor. O amor limpa a alma...

Assim, velho e rio seguiram sua viagem juntos. Ambos estavam caminhavam para um só lugar. O tempo era curto e o caminho menor ainda. Muitas coisas já não poderiam ser experimentadas. O mundo era muito grande para um caminho/tempo tão pequeno. Ao longe o velho ouviu um barulho forte. Andando um pouco mais, viu muita água e percebeu que seu amigo ia com mais velocidade em direção àquele lugar: o mar. Mergulhou suas mãos no rio e sentiu que ele estava com medo, e sentiu medo também. Suas lágrimas se misturaram às águas: ambos eram um só. Neste instante, em sua mente vieram as lembranças da floresta, lugar para o qual jamais retornariam. Lembrou-se da cabana, das árvores, dos pássaros de sua infância, do riacho, da ponte, dos viajantes... Não havia mais tempo. O chamado que vinha do mar transformava a lentidão das horas no rápido compasso do anoitecer. A brisa fria e a meia-luz davam o tom da última melodia. E foi assim, no andamento crepuscular da existência, que dois amigos mergulharam no infinito... Ali, o velho se tornou criança e o rio se transformou num limpo riacho, e ambos brincaram novamente...
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sábado, 22 de agosto de 2009

Sobre deuses e vovós...*


Reza uma velha lenda – dos tempos de Epimeteu – que os homens, temendo serem esquecidos pelos deuses, buscaram uma forma de seduzi-los para tê-los sempre por perto. Tentaram de tudo, desde orações até as mais estranhas orgias. As orações trouxeram um efeito inverso: os deuses estavam enjoados das mesmas palavras. Das orgias nem quiseram saber. Afinal, é entre as divindades que se encontram as mais belas formas (basta lembrar-se de Platão). No entanto, se estes artifícios já não funcionavam, o que fazer? Tinha que ser algo mais elevado, que não só tocasse os espíritos divinos, mas que os fizessem ter desejos humanos. Mas o que poderia ser isso? Ora, uma velha senhora, pouco entendida das teorias difíceis, porém grandiosa na arte dos prazeres simples, deu a dica: vamos oferecer-lhes a melhor comida! Sabedoria de uma velha sedutora, que na juventude duplicava o desejo dos homens com sua beleza e seus saborosos pratos. Pois não é que deu certo? De tanto gostarem das novas oferendas, os deuses passaram a desejá-las mais. Lembraram-se dos homens, aproximaram-se, apaixonaram e fizeram promessas de amor.
O prazer do gosto não só invade o corpo como faz brotar dos lábios um louvor à condição humana. Tem o poder de reunir no presente o passado das lembranças e o futuro do desejo. Quantos durante as férias não deixam suas casas só para se deliciarem com a comida e as guloseimas da vovó? Coitada destas, dizem alguns, tão ultrapassadas. Enganam-se. Elas é que são sábias: com seus poderes mágicos e seus temperos, reúnem perto de si os mais queridos. Grandes entendidas da metafísica do sabor... “A palavra se fez carne e habitou entre nós...” Não, nas mãos destas velhas “a carne se faz palavra e eles habitam entre mim...” Basta apenas uma mordida e o milagre acontece: imagens, paisagens, pessoas, abraços, sonhos de infância, pedaços esquecidos de nós, tudo nos sabores... Tudo nas mãos daquela anciã...
Hoje, estamos acostumados à comida rápida, microondas, conservas/conversas enlatadas – comida por atacado. O sabor é o mesmo para todos. É uma cultura da aglutinação (prazer coletivo) que faz com que todos tenham os mesmos sonhos/pesadelos, criados pelas grandes vovós multinacionais. Não é mais a boa e velha comida da vovó (que era minha, coisa da infância) que a gente esperava com paciência ao lado do fogão, brincando com os primos. Temo pelos filhos de nossos filhos que nos terão como avós. No tempo deles, os deuses se irão ou darão uma rápida passada numa lanchonete de fast-food. E suas bênçãos, o que será delas? Com certeza, não haverá tantos louvores à condição humana. O que restará? Alguém tem chá de boldo aí? A vovó tem...
*Publicado em "Epimeteu", 2002.
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sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Os suspiros de uma democracia...


Acabaram de arquivar a nossa democracia. Todos possuem o direito de não serem condenados se inocentados, mas só em um país sem propósitos alguns têm o direito de não serem investigados se suspeitos. O que ninguém responde é por que chamamos esse mesmo país de democrático. Tolos são aqueles que acham que ainda brincam conosco... A verdade é que eles zombam da nossa cara. Sempre há acordos no final (que nós já deveríamos ter parado de chamar de pizza, dando enormes asas à impunidade). Foi assim algum tempo atrás, é assim hoje e será assim amanhã. Estamos mais tolerantes e eles mais... mais... corruptos? Ora, quem irá condená-los se eles mesmos são a lei? Teoricamente são eles que deveriam dizer o que é certo, e na prática é isso... Eles nos disseram que nada do que eles fazem é sujo suficientemente para estarem errados. Lembrem-se da queda da Bastilha, quando os sonhadores da democracia moderna derrubavam simbolicamente um regime ilegítimo. Quanto tempo esperaremos para jogar por terra o nosso regime ilegítimo? Não adianta um grito contido, um protesto calado, uma ação aprisionada. Para ser sincero, ou não queremos mais pintar nossas caras para não atrapalharmos nossas maquiagens e bronzeados ou já nos enjoamos da conquista democrática. Talvez seja porque gostamos da aventura da reconquista ou porque nos esquecemos dos inumeráveis heróis que lutaram nas ruas para reaverem o poder de todos. Não nos esqueçamos dos tiros, das prisões, das bocas silenciadas, dos quartos vazios, das mães chorosas, dos filhos sem pais, dos diplomas sem donos... Onde estão eles? Pois é, acabaram de arquivá-los com nossa democracia...
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quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Tudo bem, vamos discutir a relação...


Gostaria de pedir licença... poética. Vamos discutir o indiscutível. Eu só te procurei porque não queria te encontrar. Aliás, penso que se jamais tivesses me amado, já terias me amado um dia. O contrário também poderia ser verdade se eu nunca tivesse sido contrariado de que o inverso seria verdadeiro. Mas isso não importa, já que tu sempre te importas com o que invariavelmente me importo. Ora, quero que saibas que se eu te amo é porque nunca amei ninguém, ainda que isto se refira a ti. Aprecio-te como aprecio a nudez de uma mulher que nunca se despiu para que alguém a apreciasse. Não que eu esteja indisposto, posto que normalmente me disponho a estar contigo, ainda que seja indisponivelmente. Algumas vezes, desprezo-te só pelo fato de que a cada dia te prezo mais. Entre nós não há mais nada, embora o nada seja impensável, logo, deve haver muita coisa, pois ainda penso em ti. Devo te falar mais duas coisas: enquanto não te olhava, não sabia por que te olhava tanto e decidi continuar te olhando. Da segunda coisa me esqueci. Não tem problema, ainda tenho que falar uma terceira: acho que nunca me compreendes bem. Porém, decidi tudo, o que se dará por decidido quando souber o que havias decidido antes da minha decisão. Por fim, se me despeço dizendo adeus é porque sei que amanhã te verei brevemente...
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quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Porque não sou poeta...


Não sou poeta. Poetas são aqueles que sabem usar as regras da métrica, da rima... que cantam com sons sem que haja música. Nisso sou péssimo. Quem quiser aprender algo sobre a estrutura de um soneto, por exemplo, não leia meus textos. Aliás, neles nada se aprende. Os verdadeiros poetas brincam de cupidos léxicos, têm prazer no apaixonamento das palavras. Em seu jogo, estabelece-se toda tensão de uma paixão: o flerte, o receio, o convite, o beijo, o enamoramento, o amor, o ódio, a eternidade... Eternamente a palavra poética, e só é poética a palavra que já foi conjugada, estará unida ao seu par... É por isso que se diz que há o amor segundo Platão, segundo o Apóstolo Paulo, Agostinho de Hipona, Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes... Cada um possui o próprio universo poético. As palavras poéticas não sabem pedir licença e ainda assim todos os sons se silenciam diante delas. Elas dançam no tempo e no espaço, dos pensamentos do poeta aos ouvidos alheios antes mesmo de terem sido ouvidas. Não são desta forma os mensageiros da morte, aqueles que destroem a eternidade, capazes de fazerem ruir as mais belas paixões poéticas. A tais algozes foi dado outro nome: críticos. Eu suas bocas a palavra viva é mastigada, destroçada, sacrificada... São os mesmos que matam, realizam a autópsia e simulam os lamentos fúnebres com seus comparsas... que não são poucos. Mas não é por isso que não sou poeta... Assim diz o palavreiro.
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terça-feira, 18 de agosto de 2009

O vendedor de palavras...


Eu gostaria de vender minhas palavras, mas acho que isso não será possível. Isso porque palavras não pertencem a ninguém, estão na boca de todos, nos textos, nos outdoors... De qualquer modo, quando a gente junta palavras, cria aquilo que os outros chamam de ideias. No entanto, ideias são coisas que estão na cabeça de cada um. Moram nela com suas imagens, seus cheiros, seus sabores, suas nostalgias... Porém, tem muita gente que acha que vê ideias. Algumas até pensam que lêem ideias. Acontece mais ou menos assim. Eu junto algumas palavras e aí você as lê. Quando elas penetram e falam mais do que deveriam, você diz: que interessante, esse escritor falou exatamente o que eu penso, como gostaria que essa ideia fosse minha. Por isso existem bons vendedores de palavras, porque conseguem fazer com que seus saquinhos de letras sejam saborosos.

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segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Ao sabor da luz...


O tipo de luz determina a escrita. Existe a luz que se impõe, fazendo-nos olhar para fora. É a luz diurna, solar. Sua característica é mostrar verdade demais. Os escritores que se banham por ela falam de convicções e formulam sentenças categóricas. Sua sina é sempre pensarem que são compreendidos, mas nada conseguiram expressar. Seus interlocutores são seres fotofóbicos, habitantes das profundezas da terra, toupeiras. Por sua vez, a luz das velas opera um movimento inverso. Ela convida o olhar interior. Os escritores que escrevem nessa circunstância são pouco democráticos, um quase silencio. No entanto, assustam-se que outros os tenham ouvido. Não escrevem verdades públicas, mas íntimas. Talvez seja por isso que muitos acreditem neles, e há até aqueles que se transformam em seus clones intelectuais... Por fim, existe a luz do horizonte, aquela que vem, embora não se saiba do que procede. É meia... luz... Está entre o visível e o invisível, a luminosidade e as trevas, o saber e o não saber... Mostra apenas silhuetas, numa cor exclusiva de sabor. Nela, fundem-se a coisa e a sua sombra, a verdade e a mentira, o escritor e a escrita...
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sábado, 15 de agosto de 2009

Vamos falar dos desejos...


Não que queiramos ser urubus, vivendo sempre às voltas da putrefação da humanidade. Eles produziram tudo, e nós sonhamos com seus frutos, como se isso nos fizesse árvores. Não que queiramos habitar as ruínas do mundo, nas redondezas continentais da esfericidade da Gaia. Eles construíram em seus vôos noturnos, mas nós sequer somos corujas. Teríamos sido enganados ou apenas preferimos a ilusão de estarmos edificando algo infinitamente elevado? Enquanto não seguramos as rédeas do futuro, não caminhamos adiante. Mas gostamos do cheiro das velharias, enchendo nossos quartos do des/agradável incenso das mentes que nos hipnotizaram. Por isso, somos aves entorpecidas pelo fedor que vem debaixo, e não enaltecidas pelo perfume etéreo de uma inexplorada genialidade. Não que queiramos ser urubus, mas isso é preferível a não ser nada. Comer da vida, produzir a vida, expandir a vida é muito mais difícil do que encontrar a podridão pronta nos aterros da grandiosa sabedoria dos inumeráveis outros. Não que queiramos ser urubus... Mas também não queremos ser ratos. Há alguém se alimentando do nosso esgoto?
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sexta-feira, 14 de agosto de 2009

A caixinha...


Aqui estão vocês, possuidores de tudo aquilo que chamam de racionalidade. Agora, abra-se a caixa. Seria melhor que permanecesse fechada. Querem que continue aberta? Podem fechá-la? Ela é pequena demais para dela sair muita coisa, mas é assustadoramente grande para que nela habitem aqueles que por ela entram. Assim, a surpresa não está no que dela sai, e sim naquilo que por ela entra. Não, ela não é uma espécie de buraco negro, que compulsoriamente captura o que está ao seu redor, aprisionando no mistério seus objetos. Os que na caixa entram o fazem porque querem, e saem se quiserem. Resta saber se vão querer sair. Apenas uma dica: enquanto espiam o interior da caixa, vocês devem saber que seus corpos ficam do lado de fora, mas seus pensamentos vagarão por entre as surpreendentes trilhas deste ínfimo, porém infinito mundo. Ouçam a melodia... Ouçam os outros sons que a ela se unem... São eles, todos eles... Antes eram três, depois, quatro, cinco... Ouçam! É por ali que passa a harmonia, pelas sendas que só se mostram à penumbra, e aqueles que por elas caminham têm a sensação crepuscular, embora sempre vejam o nascer de um sol. Ouçam e caminhem... e pensem. Abre-se a caixa... surrealista...
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